Artigo – A Escola não pode tudo

por Francisco Carbonari
O início do ano trouxe uma sucessão de notícias sobre problemas envolvendo as escolas paulistas. Casos de bullying, grupos de WhatsApp agressivos, proibição do uso de celulares e a violência de um modo geral foram amplamente divulgados. Embora essas questões não sejam, em essência, de responsabilidade exclusiva da escola, elas acabam impactando diretamente o ambiente escolar.
No mundo contemporâneo, as escolas enfrentam desafios que vão muito além das funções que sempre desempenharam, de ensinar. Tornaram-se instituições que lidam com problemas sociais, emocionais e familiares que, em muitos casos, não deveriam ser de sua responsabilidade exclusiva e sem que tenham estrutura para lidar com eles. A crise da organização familiar, a fragilidade dos laços comunitários e o enfraquecimento de outras instituições sociais fizeram que a escola se tornasse, o único espaço de referência e acolhimento para muitas crianças e jovens.
É comum ouvirmos que a solução dos problemas do Brasil passa pela educação. Ninguém duvida disso. No entanto, essa afirmação muitas vezes carrega um equívoco: a ideia de que cabe exclusivamente à escola essa missão. Com isso, sociedade e famílias transferem para a instituição de ensino responsabilidades que deveriam ser compartilhadas.
Os professores, também são vítimas deste processo. Além de ensinar e formar cidadãos, são frequentemente chamados a atuar como psicólogos, assistentes sociais e mediadores de conflitos familiares. O agravamento das desigualdades sociais, o aumento dos problemas emocionais e a desestruturação familiar tornam a escola alvo de cobranças por resultados que dependem de fatores que estão fora do seu controle.
A verdade é que escola, sozinha, não resolverá problemas complexos como a violência, o uso de drogas ou a excessiva exposição às telas. Na realidade, ela enfrenta dificuldades até mesmo para cumprir sua função mais básica: ensinar a ler e a escrever com qualidade. Seus limites são evidentes, e esperar que assuma sozinha desafios estruturais de toda a sociedade é ingênuo e injusto.
Ainda assim, a escola permanece como uma das poucas instituições que funcionam de maneira organizada e sistemática na formação das novas gerações. No entanto, sem um esforço coletivo para fortalecer a parceria entre escola, família e comunidade, corremos o risco de sobrecarregar o sistema educacional, sem oferecer soluções reais.
Se queremos mudanças efetivas, é preciso entender que a escola não pode tudo. O envolvimento da sociedade é indispensável. A educação é, sem dúvida, um caminho essencial para um futuro melhor, mas sua construção depende de um esforço coletivo, e não da responsabilidade exclusiva da escola.