Revista Tamises Volume XIV - 2016 - Crônicas Prof. Clóvis Roberto dos Santos PDF Imprimir E-mail
Escrito por Clóvis Roberto dos Santos   

Revista Tamises - Academia de Letras da Grande São Paulo

VOLUME XIV - 2016

CRÔNICAS PROF. CLÓVIS ROBERTO DOS SANTOS

MINHAS CRÔNICAS PEDAGÓGICAS

  

PROFESSOR ALIENADO

 

 

“A avaliação exerce poderoso efeito sobre a aprendizagem. Uma pesquisa feita no Estado de Nova Iorque demonstrou que os instrumentos de avaliação usados tinham mais efeito sobre o que foi ensinado do que os próprios programas de estudo.”

 

Ralph W. Tyler

 

 

 

Aqui tomamos o termo alienado no sentido de quem se encontra no estado de alienação, isto é, a pessoa  dotada de qualquer forma de perturbação mental  que a  incapacita para agir  segundo as normas legais e convencionais do seu meio social, conforme o Dicionário Aurélio. No âmbito do magistério, pode ser entendido como o professor que faz de sua profissão apenas um passatempo  agradável porque não cria caso com ninguém, não se amofina e não fala coisa alguma  que o incompatibilize com a situação ou com o sistema. Enfim, um desligado.

 

Todos nós, ao longo de nossa escolaridade ou de nosso magistério, conhecemos os mais variados tipos de professores, alguns definidos pelo ilustre Professor Doutor Imídio Nérici, da Universidade de São Paulo, que tive a honra de ter sido seu aluno num curso de pós-graduação na USP, em 1971, patrocinado pela Organização dos Estados Americanos (OEA). No primeiro dia de aula ele  colocou um enorme cartaz onde lemos:

 

TIPOS DE PROFESSORES

 

1 – ADMINISTRADOR DE AULAS: é aquele que se preocupa somente com a transmissão de conteúdos. O aluno e sua aprendizagem são questões secundárias.

 

2 – ERUDIT0:  é aquele que deseja, a todo o momento, exibir sua sapiência, criando dificuldades de relacionamento em seu ambiente de trabalho.

 

3 – PESQUISADOR: é aquele que, apesar de seu interesse em manter-se atualizado, não fornece elementos básicos e orgânicos de sua disciplina.

 

 

 

4 – EDUCADOR: é aquele que estimula, orienta, prepara para a pesquisa, desperta para a curiosidade, desenvolve o espírito crítico, valoriza o educando, preparando-o para sua efetiva integração na sociedade.

 

Encontramos outros tipos, ao longo de nosso caminho de estudante ou de professor,  devidamente identificados por Luiz Ferracine (1990) numa classificação antológica: alienado, arrogante, autoritário, bonzinho, desanimado, desorganizado, ideólogo, inseguro, lamuriante, saudosista, subversivo, terrorista etc.

 

 De todos eles,  um  me chamou a atenção porque  convivi com o tipo nos meus tempos de aulas de Matemática no Colégio Estadual de Vila Guiomar de Santo André – SP, em 1969. Ele era, realmente, um alienado.

 

Resolvi, então, dramatizar:

 

Ambiente: Sala de estar, sofá, mesa de centro, TV ligada transmitindo um jogo de futebol entre Corinthians e Palmeiras. Um professor sentado à mesa com um  maço de folhas de provas de alunos, uma régua e uma caneta vermelha na mão. Ao seu lado, um amigo assistindo ao jogo.

 

Professor (pondo a régua sobre cada folha de papel) dizendo: 6, 8, 7, 9, 10, 6...

 

Amigo: O que você está fazendo?

 

Professor: Corrigindo provas.

 

Amigo: Para quê a régua?

 

Professor: Para medir o tamanho do trabalho do aluno, porque quanto mais escreve, melhor.

 

Amigo: Mas, você não lê a prova?

 

Professor: Eu não. Eu sei que deve estar certo pois dou prova por consulta e o aluno copia do livro ou da apostila. Então, dou nota de seis a dez, dependendo  do tamanho da prova. Quanto maior, melhor é a nota.

 

Amigo: E a opinião deles, não interessa?

 

Professor: E eu sou louco de querer saber a opinião desses caras?  Olha, por exemplo, essa prova  de História do Brasil, período pós Jânio e Goulart. Se permitir que os alunos expressem sua opinião muitos vão dizer o regime militar foi bom  para o país e melhor que a democracia, ou vice-versa, e por aí afora.

 

Amigo: Então, por que você não aplica testes de múltipla escolha? É mais lógico e muito mais pedagógico.

 

Professor: Dá muito trabalho para elaborar e os alunos serão capazes de errar mais e tirando notas baixas e, então, surgem reclamações dos pais, da coordenação, da direção. Aí eu tenho de fazer a revisão e muitos vão ser reprovados e preciso trabalhar mais na recuperação e, adeus, meu descanso, meu sossego e, até, as minhas férias ficarão comprometidas. Com esse meu método de avaliação, todo mundo fica contente, alunos, pais, coordenação, direção e, até, a Secretaria da Educação.  Não é isso que estão fazendo com a tal de   “Progressão Continuada”? Todo mundo passa sem saber coisa nenhuma!

 

Amigo: Legal! Você é um professor esperto, no seu ponto de vista, mas para a sociedade e para os verdadeiros educadores, você não passa de um alienado.

 

Professor:  Alie... o quê?

 

Amigo: ...nado, quer dizer, nada.

 

No jogo, o Palmeiras faz um gol.

 

Professor:  Dá-lhe Palestra e,  (jogando as provas para o alto), é dez para todo mundo.

 

Amigo: ?????????? 

 

           HISTÓRIA DE ANTÔNIO, UM MENINO DE RUA

                                

 

                                 Com a colaboração de

 

                                 Ivanilde Apoluceno de Oliveira:

                                      

                                            Colega do Programa de Mestrado em Educação na PUC- SP – 1989

 

 

“O mestre tem a responsabilidade de fazer com que o aluno descubra, não o caminho propriamente dito, mas as vias de acesso a esse caminho, que devem conduzir a meta última.”

 

Eugen Herribel

 

 

 

Conhecemos um garoto que aparentava ter uns 10 anos de idade. Era moreno, de olhos e cabelos negros e fazia parte do grupo que denominamos de “meninos de rua”. Seu maior sonho era estudar.  Um dia ele passava por perto de uma escola e ficou maravilhado com  seu prédio suntuoso que ocupava um quarteirão. Então, ele entrou correndo numa sala de aula, perseguido pelo inspetor de alunos e disse à professora:

 

__ Tia, eu quero estudar.

 

A professora, diante daquela situação, permitiu que entrasse na sala e determinou que se sentasse numa carteira. Deu-lhe papel e lápis e disse-lhe:

 

__ Escreva seu nome.

 

Ao iniciar a escrita, colocando um A aqui, o N e o T acolá, é que a professora deduziu que seu nome era Antônio.

 

A professora então falou:

 

__ Antônio, desenhe uma flor.

 

Antônio respondeu:

 

__ Flor eu na sei desenhar.

 

A professora disse:

 

__ Desenhe o que você quiser.

 

E Antônio desenhou, com alguma desenvoltura,   um revólver com a bala saindo do cano com fumaça e tudo, o gatilho e todos os elementos característicos de uma arma de fogo; uma faca peixeira, incluindo no cabo as rodinhas do metal; um ônibus com os faróis acesos; um homem que disse ser o patrão de seu pai e um casebre com a torneira velha do lado de fora da casa, pingando água.

 

A professora, que achava não ter Antônio capacidade para alfabetizar-se, já que ele não sabia desenhar uma flor. Pensando melhor, ela conseguiu entender e  aprendeu com o menino que é preciso compreender a aquisição da escrita a partir do significado das coisas adquiridas no cotidiano social das pessoas.

 

Aprendeu, ainda, que é necessário relativizar o conhecimento e valorizar, no processo educacional, não só o saber erudito como também o saber experenciado, para que se efetive, de fato, uma relação de comunicação e de aprendizagem.

 

Assim, a experiência vivenciada com Antônio ficou na memória da professora, bem como a lição de vida:

 

 “A flor eu não sei desenhar”.                                     

 

NÓS E NOSSAS CIRCUNSTÂNCIAS

 

 

                     

“A circunstância é um elemento essencial na constituição daquilo que o homem é, o que impede a concepção do homem como um ser ontologicamente independente.”

 

Wilson Ribeiro Santos

 

 

                     

 

O famoso pesquisador do conhecimento e intelectual  espanhol, nascido  em 1883 e falecido em 1955, em Madri,  José Ortega Y Gasset, escreveu que “O   homem é o homem e suas circunstâncias”. Com isso ele quis nos transmitir o ensinamento de que não é possível se chegar ao entendimento perfeito de alguma coisa sem perceber e superar suas próprias circunstâncias.  Estas nos acompanham por toda vida e delas o homem é um eterno dependente, isto é, ele não é uma ilha isolada mesmo que se supor  sozinho como um eremita,  ermitão ou anacoreta no alto de uma elevada montanha em profunda meditação. Ele tem no seu redor o mundo exterior, isto é,  toda a natureza física e no seu interior, seus pensamentos, inquietações, controvérsias, mágoas, alegrias, tristezas, muitas dessas, as razões de sua meditação. Gasset fundou o raciovitalismo, corrente filosófica liberal, antirracionalista e antipositivista. Mais tarde, definiu-se  pelo existencialismo e sua obra teve grande repercussão na América Latina, inclusive no Brasil.

 

 A noção de circunstância e o pensar a constituição do ser humano, só são explicados se dermos importância à reflexão que busca compreendê-los. Assim, a compreensão clara do que a circunstância significa nela mesma, na sua unidade  e em suas efetivas conexões como  sua irredutibilidade  na plenitude do seu significado em nossa vida, só será entendida se atualizarmos  todas as suas virtudes e o conhecimento interno e externo de nós mesmos. Nossa interioridade e nossa exterioridade são as circunstâncias  que definem nossa personalidade, nossa razão de ser e de viver.

 

Lembrei-me da frase famosa de Ortega Y Gasset e de suas consequentes reflexões, porque ouvi outro dia um pequeno relato  bem simples, mas profundo, de um amigo em conversa num encontro casual em  rua de comércio em Santo André. Ele me disse que  a história era verídica e que o fato ocorreu em sua terra natal, Indiaporã (moça bonita, em tupi), cidade do interior paulista, no noroeste do Estado, às margens do Rio Grande, na  divisa com Minas Gerais.

 

 Uma coincidência pessoal: foi nessa cidade que, em 1º de julho de 1957, tomei posse e entrei em exercício do cargo de diretor de escola efetivo, portanto, por concurso, do Grupo Escolar de Indiaporã.

 

 Um dia chegou na cidade  um grande e importante empresário de São Paulo  que se  hospedou no único hotel, muito simples, mas limpo e aconchegante, uma espécie de pousada própria para quem precisa de um pouco de descanso da cidade grande e de seu extenuante trabalho.

 

 

No outro dia, bem cedinho,  pegou sua tralha de pesca  e convidou um velho morador da pequena cidade  para acompanhá-lo na pescaria na represa Água Vermelha, antigamente chamada de Cachoeira dos Marimbondos que, muitos diziam, era muito piscoso com dourado, curimbatá e pintado, principalmente.

 

Logo no início da pescaria, um fato chamou a atenção do empresário: cada peixe que o velho pescava ele o media com um palmo e se o peixe fosse maior ou muito menor que sua mão aberta, ele o devolvia para o rio.  Lógico, que se fosse do tamanho, ele o guardava no samburá para levá-lo para casa.

 

Depois de horas de pescaria, o fato intrigou o visitante e perguntou ao velho a razão de seu hábito, porque o normal seria ficar com os maiores. O companheiro de pescaria, com toda tranquilidade e humildade características do matuto, respondeu que  ele levava para casa apenas os peixes que cabiam na sua frigideira.  Um maior ou menor seria desperdício ou perda  de tempo.

 

Então, devemos nos adaptar  às nossas circunstâncias, o que fez o empresário pensar na recente aula que acabou de ter e se lembrar de numa frase  lida em alguma publicação, talvez pedagógica:  aprendemos 10% do que lemos, 15% do que ouvimos, porém 80% do que vivenciamos.

 

Então, para o velho pescador as circunstâncias pessoais eram a palma de sua mão, sua frigideira, suas necessidades, sua simplicidade, sua falta de ganância e sua consciência.

 

Assim, o homem é ele e suas circunstâncias.

 

A democracia (demo= povo e cracia= governo) é, desde os antigos gregos, o governo do povo, pelo povo e para o povo. Assim, a democracia é ela e suas circunstâncias, dentre essas, o povo é a principal.

 

Em muitos países, o Brasil também, especialmente de uns anos para cá, democracia é o político e suas circunstâncias, isto é, ele próprio, sua família, seus amigos,  apaniguados etc. Para eles, democracia é o governo  do político, pelo político e para o político.

 

E o povo? “O povo que se expluda”, como dizia um famoso personagem do saudoso Chico Anísio, o Deputado Justo Veríssimo.

 

 

 O QUE PODEMOS APRENDER COM OS ÍNDIOS

 

 

 

“Pergunto coisas ao buriti; e o que ele responde é: a coragem minha. Buriti quer todo o azul, e não se aparta de sua água --- carece de espelho. Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.”

 

João Guimarães Rosa

 

 

 

A educação geral não é privilégio de instituições próprias pois ela acontece em casa, na rua, nas instituições religiosas e escolares, como bem definiu a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996): aquela que abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais”.

 

Há uma história, já de domínio público, que conta um fato ocorrido  nos Estados Unidos da América do Norte, quando  Virgínia e Maryland assinaram um tratado de paz com os índios das chamadas Seis Nações. Após todo o cerimonial solene, característico da época e local, os Governadores daqueles Estados mandaram, como um gesto de amizade,  carta aos índios na qual pediram que mandassem alguns de seus jovens para que fossem educados nas escolas dos filhos dos brancos para que aprendessem um pouco de sua cultura, hábitos e, assim, se tornarem civilizados.

 

Em resposta, os índios agradeceram o convite e justificaram por outra carta que Benjamim Franklin (1706 – 1790: político e jornalista  norte-americano) resolveu divulgá-la.

 

Eis um trecho mais significativo, porque mais filosófico e pedagógico:

 

 Nós estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração.

 

Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a nossa ideia de educação não é a mesma que a vossa.

 

Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte dos Estados Unidos e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando voltavam para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros.

 

Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta, embora não possamos aceitá-la e, para mostrar nossa gratidão, oferecemos aos nobres senhores de Virgínia e Maryland que nos enviem alguns de seus jovens que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos deles homens.

 

Essa história nos faz lembrar um velho adágio conhecido desde os tempos coloniais brasileiros, talvez, herança de nossos colonizadores portugueses, que diz: “Cada porca com seu fuso e cada povo com seu uso”.

 

Nossa  educação escolar está repleta de exemplos mal sucedidos de importações de experiências pedagógicas de grande sucesso em outros países e que aplicadas aqui redundaram em verdadeiros fracassos.

 

Um  exemplo, mais ou menos recente, foi a proposta de implantação do construtivismo em nossas escolas de ensino fundamental e médio que, de repente, ocupou espaço considerável em nosso mundo educacional. Nossos próprios Conselhos de Educação de todos os níveis (Nacional, Estaduais e Municipais) baixaram atos recomendando a adoção do construtivismo que é uma teoria nascida da epistemologia genética ou teoria psicogenética de Jean Piaget que nada mais é do que, conforme Maria de Fátima Chassot,: “o estudo da gênese e desenvolvimento  das estruturas lógicas do sujeito  em interação com o objeto de aprendizagem, ou seja, o estudo do processo de construção dos conhecimentos.”  

 

O Estado de São Paulo chegou mesmo, nas décadas de 1970 e 1980  baixar, via Conselho Estadual de Educação e Secretaria de Estado da Educação, uma espécie de guias curriculares seguindo os princípios do construtivismo, num enorme documento impresso na cor verde, daí o apelido dado na rede de escolas de o “Verdão”.

 

Nós, que já exercíamos o magistério estadual na época, em vários cargos e funções, pudemos acompanhar sua pretensa aplicação e o fracasso total de sua validade, não em termos da seriedade da proposta, isto é, do seu conteúdo, mas da forma como foi sua implantação, como sempre, em pacotes com ordens para que o pessoal da base cumprisse sem um mínimo de preparo, com profissionais da educação totalmente ignorantes das teorias piagetianas e de experiências realizadas em outros países e, também, no Brasil por educadores competentes e bem intencionados.

 

Então, recorro de novo a Chassot:

 

“Para finalizar, transcrevo um pergunta feita a especialistas consultados sobre o construtivismo e a resposta dada:

 

P: É feio ser construtivista?

 

R: Não, absolutamente. Feio é não ser autêntico e não se preocupar em propiciar o melhor aos alunos, seja de si mesmo, seja das múltiplas áreas do conhecimento. Feio, enfim, é ser mau professor...”.

 

É isto, o problema maior da educação escolar brasileira é a falta de bons professores, não por culpa dos próprios, mas do sistema que não os forma bem, não os escolhe adequadamente, não os incentiva a melhorar seu desempenho e o que é  pior, os governos pagam seus profissionais da educação com um salário vergonhoso.

 

Nada melhor para encerrar a presente crônica é com uma citação do Professor Luiz Carlos de Freitas que li num cartaz levado por uma professora grevista num movimento reindificatório da categoria: “O professor não é um missionário, é um profissional que não tem salário digno. A questão é muito simples: trate o educador profissionalmente, exigindo qualidade, mas pague-o bem por seu trabalho”.

 

É isso aí! A boa educação passa por um bom professor e, esse, por um salário justo pelas responsabilidades de seu trabalho. Não se pode nunca esquecer que todos os profissionais  formados em qualquer nível de ensino tiveram professores na sua vida escolar.

 

 

 

ILHA DE EXCELÊNCIA EDUCACIONAL

 

 

 

“Rotina que funciona: na Escola Professor Pedro Gomes da Silva Basílio, em Brejo Santo – CE, o dia começa com leitura obrigatória – regras rígidas para alunos e professores.”  Revista “VEJA” – 21/4/2015

 

 

 

Para falar a verdade, nunca tinha ouvido e nem visto escrito o nome da cidade: Brejo Santo, no Estado do Ceará. Minha curiosidade foi despertada por uma matéria publicada na Revista VEJA em 21.4.2015, páginas 100 e 101 e assinada por Bianca Bibiano: “CIDADE EDUCADORA”  e como subtítulo – “A qualidade do ensino depende menos de Brasília do que de prefeitos comprometidos: com base nessa premissa, um novo prêmio destaca os municípios que promoveram avanços extraordinários em sua rede de escolas. O primeiro vencedor é Brejo Santo, no Ceará”.

 

Então, vamos conhecer um pouco de Brejo Santo e o por quê de sua notoriedade: é um Município do Estado do Ceará, localizado na Microrregião de Brejo Santo e na Mesorregião do Sul Cearense. Tem quase 48 mil habitantes e área geográfica de 661.960 km², com uma densidade demográfica de 71,98 habitantes por km², IDH 0,647  (abaixo da nacional) e “per capita” de R$ 5.301,00 (70% menor que a do Brasil),  localiza-se no semi-árido cearense, aos pés da chapada do Araripe e dista 521km de Fortaleza. Apesar desses índices desfavoráveis, uma de suas escolas, a Maria Leite de Araújo, alcançou nota elevada no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) que combina taxas de evasão e repetência com desempenho escolar  no nível fundamental.

 

Conforme matéria da revista: “Concorriam ao Prêmio Prefeito Nota 10, cidades com mais de 20 mil habitantes em que ao menos 80% dos alunos fizeram a Prova Brasil. Destes, 70% deveriam dominar conhecimentos de Português e Matemática, mas nenhuma cidade preencheu esse requisito. O prêmio aponta um destaque por região do Brasil; nesta edição, porém, nenhum município da Região Norte chegou lá”. Enquanto a média no Brasil foi de 38% (5º ano) e 21% (9º ano) em Português, Brejo Santo teve, respectivamente, 69% e 45%, vindo a seguir as seguintes cidades, com menção honrosa: Lucas do Rio Verde (MT), Sapiranga (RS) e Cerquilho (SP).

 

O que significam esses dados? Muito, já que as cidades citadas adotaram uma política diferente das costumeiras no País, isto é, as verbas destinadas à educação foram realmente e honestamente aplicadas com o objetivo de melhorar o sistema de ensino municipal e não, como ocorre normalmente, desviadas para outros fins nada nobres como pavimentar estradas que ligam a cidade à propriedade rural do prefeito, ou contratar dezenas de afilhados, inclusive familiares de políticos para exercerem cargos em comissão absolutamente desnecessários ou, ainda, cobrir rombos da má gestão financeira.

 

O Prefeito de Brejo Santo afirmou: “Coloquei a educação no centro do meu projeto político, porque sei que isso terá impacto nos demais setores da vida local”.  Simples e sábias palavras do jovem médico de 29 anos, Dr. Guilherme Sampaio Landim, confirmadas pela Secretária da Educação Municipal, Ana Jacqueline Braga que afirma: “Fazemos feijão com arroz benfeito todos os dias”.   O  que ela quis dizer é que na simplicidade de seu cardápio se incluem  regras rígidas para os alunos e para os professores, como dever de casa, assiduidade e pontualidade de todos, avaliação constante da atuação dos professores e, aqueles que não demonstraram bons resultados, foram retirados das salas de aulas e, para os bons, os salários foram aumentados muito além do mínimo nacional  que, diga-se de passagem, ainda é muito baixo pela importância do trabalho do professor.

 

O jornal “Folha de São Paulo” de 25.4.2015, p. C7, deu  destaque ao assunto, noticiando que o “Instituto Alfa e Beto (IAB), ONG dedicada a ações de melhoria da educação, realiza cerimônia de entrega do 1º Prêmio  Prefeito Nota 10. O prêmio busca identificar e premiar municípios com elevado grau de qualidade de ensino fundamental. O vencedor  desta primeira edição foi Guilherme Sampaio Landim, prefeito de Brejo Santo – CE, e foram agraciados com menção honrosa os prefeitos de Cerquilho – SP, Lucas do Rio Verde – MT e Sapiranga – RS”.   

 

É pena que  exemplo de Brejo Santo e outros poucos lugares seja uma exceção num total de mais de 5000 municípios brasileiros. Mas já é um começo e, embora haja muita coisa a ser feita, “o caminho, no entanto, está traçado”: honestidade, vontade política, gestão competente, além de profissionais da educação bem formados, avaliados e remunerados com justiça, com um salário mínimo da categoria bem maior do que o atual, no início da carreira. Simples, não? Dinheiro tem e de sobra  e porque as pesquisas realizadas pela imprensa investigativa apontam que mais de 40% das verbas para a educação têm destinos totalmente diversos.

 

É isso aí: “fazemos feijão com arroz benfeito todos os dias”, nas sábias palavras de Ana Jacqueline Braga, Secretária da Educação de Brejo Santo. Em vez de retóricas vazias e inconsequentes, a prática efetiva  com resultados positivos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Adicione esta página